Mais
de 700 resgates são realizados a cada ano nas montanhas que formam o Maciço
do Mont-Blanc. Estes resgates são realizados pelo Pelotão de Guarda de Alta
Montanha (PGHM) e em 70% dos casos o resgate é realizado com a presença de um
médico no local de acidente. Alguns fatores tais como a boa transmissão do alerta
de socorro, graças a uma rede sofisticada de rádio, a estrutura relativamente
compacta do maciço e a posição estratégica do hospital, tornam possível a realização
do resgate em menos de uma hora. Em 95 % dos resgates o helicóptero é utilizado.
Ele é um Alouette III, projetado há 40 anos. Bem adaptado ao ambiente, bom para
as manobras, oferece uma boa visibilidade dos rochedos, com um tamanho aceitável,
o helicoptero é equipado com uma corda-guindaste de 40 m de comprimento.
Para serem aptos no terreno, os médicos precisam ser não apenas competentes em trauma e atendimento de urgência, mas também alpinistas extremamente treinados e suficientemente motivados, pois muitas vezes precisam participar de resgates no fundo de gretas, ou sob ameaça direta de quedas de pedras soltas. Estas são qualidades essenciais que permitem a integração da equipe, para evitar que se coloque ainda mais em risco tanto as vitimas, quanto a equipe responsável pelo resgate.
O material médico é clássico, compacto, leve, e consiste muitas vezes de uma mochila, projetada pela Lafuma, dividida em três compartimentos e uma pochete de cintura na qual se encontram as principais drogas usadas em emergência. Uma parte da mochila se divide em quatro pequenos bolsos (medicamentos, material para intubação, para hidratação venosa e curativos) e uma unidade para o material técnico (piolet, crampons, capacete...). A maca mais usada é a " Perche Piguillem " , perfeitamente adaptável ao guincho. A imobilização da vítima é assegurada pela fixação na maca, uso de colar cervical, talas de tronco ou membros ou uma maca a vácuo. O isolamento contra o frio é muito importante. O oxigênio é disponível sistematicamente, sendo administrado inicialmente e no embarque de vítimas de mal agudo das montanhas (ou doença da altitude).
A população socorrida pode
ser classificada como sendo jovem, masculina e em sua maioria composta por estrangeiros.
A atividade de socorro é igualmente dividida durante os meses de verão e inverno,
e corresponde a partes praticamente iguais tanto de acidentes com ski quanto
de alpinismo. O elevado número de pessoas que frequentam o Vallée Blanche no
inverno para esquiar e que escalam o Mont-Blanc no verão, fazem destas duas
áreas os sítios mais comuns de resgate em todo o Maciço. 25% dos socorros são
realizados a uma altitude acima de 3500m. A principal patologia atendida é o
traumatismo de membros (50%), com morbidade moderada.
Devido
a grande energia cinética desperendida durante as quedas, as fraturas são em
sua maioria múltiplas e complexas, o que requer atenção imediata do serviço
de emergência. As mortes são quatro vezes mais comuns entre escaladores do que
entre esquiadores, e estão em sua maioria relacionadas a quedas do escalador
ou acidentes com pedras soltas. Bastante graves são ainda os 22% de vítimas
que apresentam traumatismo craniano, muitas vezes devido a queda de pedras,
blocos de gelo ou própria queda do escalador. 10% destes resgates apresentam-se
com lesão vertebral, 12% dos quais evoluem lesão neurológica grave. 20% dos
atendidos são politraumatizados. Em muitos destes pacientes, os sinais neurológicos,
a hipotermia e o choque hemorrágico estão associados, o que pode dificultar
a abordagen diagnóstica. Infelizmente, 7% das vítimas encontram-se mortas no
momento do resgate. Um follow-up de nossos estudos mostrou que 83% das vítimas
em estado grave tem boa evolução ou recuperam-se completamente. Neste pacientes,
o curto espaço de tempo compreendido entre o momento do acidente e o resgate,
faz com que eles tenham bom prognóstico.
O exame clínico do paciente no local do acidente é sempre dificultado , não apenas pelas próprias condições do terreno mas também pelas roupas e equipamentos usados pelos montanhistas. o tratamento inicial é habitualmente baseado na imobilização, sedação e analgesia do paciente. Para os casos mais graves, é possível realizar técnicas de reanimação (não importa em que condições, seja neve, queda de pedras...) mas isto deve ser bem avaliado contra o risco de hipóxia, hipotermia, avalanches, proximidade com o hospital , geralmente alcançado em torno de 5 minutos com o helicóptero. A experiência em alpinismo e em medicina de urgência do médico de montanha é essencial, muitas vezes ele precisa improvisar o atendimento. Ele é o único que pode decidir por uma intubação, ou perfusão ou não, de acordo com o ambiente, e as condições do paciente. O acesso venoso é importante, mas não deve atrasar o resgate. Geralmente nós usamos o cateter apenas para infusão de drogas, já que torna-se difícil manter a perfusão em tais condições.
Apesar de ser excelente para o resgate nos alpes, o Alouette III enfrenta alguns problemas técnicos no resgate de pacientes pelo guindaste (45% dos resgates realizados), primeiramente a maca só pode ser embarcada se for inclinada a 50 graus, manobra incompativel quando se trata de pacientes hemodinamicamente instáveis. Nestes casos a maca é levada fora do helicóptero até um local onde ele possa pousar e assim receber o paciente em posição horizontal; em segundo lugar , como somente uma pessoa pode ser levada de cada vez, o médico é levado primeiro para o cockpit e depois o paciente. A maca fica tranversalmente no interior do helicóptero, com o médico logo acima do paciente. Sendo assim qualquer medicamento que o médico possa necessitar durante o trajeto, deve ser preparado no local do acidente e ser transportado com o médico.
A
presença de um médico de montanha no equipe de resgate é muito importante. Nossa
atuação não se resume a atuação no local do acidente, na maioria das vezes a
especialização do Hospital de Chamonix nos permite assegurar e tratar a maioria
dos casos, desde o local de acidente até o momento de retorno ao lar. A partir
do momento que o alerta é recebido, até a chegada no local de acidente, tudo
é realizado com harmonioso trabalho de equipe, para que o resgate se dê de maneira
satisfatória. No entanto para reduzirmos a mortalidade na região do Mont-Blanc,
é necessário nos concentrarmos antes que o alerta chegue até nós, e especificamente
em duas áreas. Primeiramente encorajar o maior uso e com seriedade dos rádios
e telefones celulares e depois, e acima de tudo, maior observação e respeito
as regras mínimas de segurança na montanha.
(c) DMTM CHAMONIX 1998
Merci à Vanessa, de Rio, pour la traduction.